Os recentes acontecimentos que rodeiam a publicação de alguns “cartoons” em jornais Dinamarqueses, que satirizam o mundo árabe e a sua religião, tem levantado ondas de protestos em muitas comunidades islâmicas.
Pessoalmente defendo que a liberdade é um direito essencial e fundamental, inalienável a qualquer ser humano, mas também é verdade que a mesma deve ser exercida sem violar as sensibilidades, crenças e direitos dos demais.
No entanto este é um caso que ultrapassa a mera fronteira do conflito de direitos!
Trata-se de uma situação que demonstra bem a diferença de valores, e o perigo que enfrentam as próprias democracias, se não se impuser alguns limites ao exercício das liberdades.
Não sou a favor da ofensa às sensibilidades de outros povos, muito menos às suas mais intimas convicções, mas a atitude subsequente à publicação dos ditos “cartoons” mostra bem a diferença de mentalidades.
As manifestações contra os “cartoons” que ocorreram em países ocidentais, só tiveram lugar porque nesses mesmos países, existe o direito de expressão. São os mesmos valores que permitiram a publicação das malfadadas caricaturas, que permitem essas comunidades virem para a rua manifestar o seu desagrado. Então estas manifestam-se ao abrigo de um principio basilar da democracia contra um acto que foi praticado ao abrigo desse mesmo principio.
Uma reacção destas no mundo árabe contra o acto atentatório da “dignidade religiosa” de outra qualquer crença seria impensável, não só pela ausência do direito à livre expressão, como pela ausência de igual tratamento entre todas as crenças.
É de facto um acontecimento ilustrativo dos perigos que ameaçam as democracias…as suas maiores virtudes podem também ser os seus maiores perigos!